Nesta edição do Sair da Casca atravessamos um oceano para conversarmos com o Ricardo Pinto, poucos dias depois do começo de mais uma grande aventura. Product Manager de profissão e experiente viajante, não nega que haja quem o descreva ao contrário: Viajante de profissão e experiente Product Manager.  Vamos descobrir.

As conversas que temos tido no Sair da Casca tendem a começar com um regresso ao passado. Hoje queria fazer exatamente o oposto. Conta-nos onde estás neste preciso momento.

Argentina. Mais precisamente em Salta, uma cidade a Norte de Mendoza, de onde acabei de chegar. São dez da manhã, menos três horas do que em Portugal, e estou a umas dentadas de acabar um pequeno-almoço “aportuguesado” no jardim de um Hostel – pão com manteiga e um sumo de laranja (risos).

Como é que foste aí parar?

Longa história… (risos). Estou numa viagem de seis meses pelas Américas.

Seis meses não é uma volta ao quarteirão… Sempre tiveste essa vontade de viajar? Dizem que é uma sede que não se cura.

Cresci numa terra muito pequena, perto de Lisboa. Podia ter ficado por lá, mas tive a sorte dos meus pais me terem incentivado a explorar, partir, experimentar. Uma vida de descoberta.

A primeira oportunidade que tive para viajar à séria foi através do programa Erasmus, que me deu a conhecer Barcelona. Uma cidade que nunca esqueci, nem nunca ei de esquecer. Acho que foi aí que percebi que o Mundo era grande demais para me limitar a uma cidade ou um país.

Hoje quantos pontos tens picados no mapa?

Alguns… (risos). Já vivi em sete países, e já passei por mais uns quantos. Vivi em Barcelona, Londres, Barcelona outra vez, fiz uma viagem de seis meses pela Ásia, estive um ano na Austrália e até há bem pouco tempo viva em São Paulo, no Brasil.

Não andaste sempre de mochila às costas, por assim dizer. Foi uma aventura de cada vez. Houve alguma constante ao longo dos anos? Algo do qual nunca abdicaste?

Diria duas coisas. Em primeiro lugar, o trabalho. Fui sempre perseguindo oportunidades de trabalho e desafiando-me nesse sentido.

Em segundo lugar, o Rugby. Comecei a jogar quando era miúdo, na Agronomia, e joguei em todos os países onde vivi. É um desporto espetacular: exigente, físico, de equipa, de companheirismo e de respeito pelo adversário. Tudo valores essenciais.

Para além da minha paixão pelo desporto em si, era também o meu escape. Não há nada melhor do que sair do trabalho e ir treinar, correr, suar, rebolar na lama. São duas horas em que desligo o piloto automático e só me foco naquele momento.

Que mais é que te tem ajudado a escapar, a desligar o piloto automático?

Sessões de Psicologia. O ritual tornou-se importante. Uma hora para me focar em mim. Comecei em Barcelona, e mais tarde quando me mudei para Londres continuei a fazê-lo online, por videochamada.

Comecei porque sentia que precisava de falar com alguém sobre a minha vida, as minhas decisões, e tentar perceber melhor o meu comportamento. Sempre fui muito fechado quanto aos meus pensamentos e às minhas emoções, tanto com amigos como com a minha família. Pode parecer um contrassenso, mas quando falei com alguém de fora do meu círculo, desconhecido, isento, experimentei uma abertura totalmente diferente.

Dirias que essas tuas sessões influenciaram o teu percurso?

Diretamente, não. Indiretamente, claro que sim. Os resultados das minhas sessões nunca me influenciaram a partir ou a ficar, virar à esquerda ou à direita. O foco de todo o processo foi interior, foi conhecer-me a mim próprio. Se viajei, é porque sempre quis viajar. A Psicologia não me incutiu esta vontade, só me ajudou a encontrá-la. Hoje estou consciente de que as decisões que tomei são um reflexo mais autêntico da minha vontade, daquilo que realmente me move.

Passamos uma vida inteira sem nos conhecermos, sem olharmos para dentro, para aquilo que nos faz únicos. É uma das grandes lacunas da nossa sociedade. Vivemos em função dos outros, de benchmarks. Basta pensarmos no nosso sistema de educação, onde aprendemos todos o mesmo conteúdo, ensinado da mesma forma, avaliado da mesma forma… Em nada se trabalha o Autoconhecimento. A terapia ensinou-me imenso. Foi uma autêntica viagem de autodescoberta.

Voltando agora à Argentina e ao jardim do teu Hostel. Consegues dizer-nos o que é que te motivou a arrancar nessa viagem de meio ano?

Percebi que apesar dos quilómetros percorridos, e das experiências que vivi, ainda não tinha aprendido a viver sozinho, realmente sozinho. Estar comigo próprio, conversar comigo próprio e aproveitar uma experiência destas a sós.

Nos países onde vivi e nas viagens que fiz, apesar de longe da minha família, estive sempre perto da família que eu escolhi: os meus amigos. Desta vez quis experimentar uma missão a solo, e tem sido uma experiência espetacular.

Qual é a tua visão para o teu futuro?

Bem, para já quero chegar ao Alasca… (Risos). É o objetivo final. Depois logo se vê, talvez volte a Barcelona, ou ao Brasil. Foram os sítios onde me senti mais em casa desde de que saí de Portugal.

Escolhi não tomar uma decisão agora e aproveitar a própria viagem, e o tempo que terei para mim, para decidir da forma mais consciente possível.

E filhos? Família. Raízes, como se costuma dizer…

Sempre quis ser pai. Nos últimos anos mais ainda… Sei que será uma fase importante da minha vida, e acho que nunca me sentirei totalmente realizado sem passar por ela.

Há uma coisa que com o tempo fui aprendendo a fazer, e que a Psicologia me ensinou: deixar as coisas rolarem, acontecerem. Quando deixo de as perseguir, parece que elas encontram uma forma de se cruzarem com o meu caminho.

Para acabar: Ao longo de toda a tua jornada qual foi a experiência que mais te marcou, e que queiras partilhar connosco?

Provavelmente o retiro que fiz num mosteiro em Chiang Mai, na Tailândia. Dez dias de silêncio. Uma experiência brutal.

Só trocávamos umas palavras com um monge ao final do dia, para que ele nos pudesse guiar o nosso processo de meditação. Eram mesmo só umas palavras, o que fosse estritamente necessário. Nada de conversas de elevador. Durante o resto do dia meditávamos sentados, ou em movimento, a caminhar pelos terrenos do mosteiro.

Acabei por não conseguir ficar os dez dias em silêncio, só seis, mas foi único. Quando é que foi a última vez que estiveram um dia inteiro sem falar, refugiados nos vossos pensamentos? Provavelmente nunca! Recomendo a toda a gente. Experimentem!

Podemos voltar a falar quando chegares ao Alasca?

Se lá chegar… (Risos). Fica combinado!

Zenklub

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Proporcionar um estilo de vida mais saudável e permitir que as pessoas tomem controlo da sua saúde emocional e bem-estar é o objetivo do Zenklub. Para além das matérias no blog, no nosso website poderá consultar um psicólogo por vídeo-chamada, esteja onde estiver. São mais de 30 psicólogos a um clique de distância.
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