Recém-chegado de Barcelona para uns dias de descanso no Porto, esta semana conversámos com o Nuno Marques. Quando saiu da casca, o Nuno acabou por se lançar numa carreira até então inesperada, a de modelo. Qual a importância do bem-estar emocional numa industria tão “física” como a moda? Vamos descobrir.

Como é que começa uma carreira de modelo? Também foste recrutado na rua, ou isso é mais mito do que realidade?

Não fui recrutado na rua, não, nem a passear num Shopping.. (Risos.) Mas dizem que acontece!

Para mim começou há mais ou menos dois anos. Na altura dava aulas de surf de manhã, na Onda Pura, no Porto, onde sempre vivi, e à tarde trabalhava como monitor num programa de atividades extracurriculares. Várias pessoas com quem me ia cruzando diziam-me que devia experimentar tirar umas fotografias, fazer um book ou ir a uma agência, inclusive algumas pessoas com experiência na indústria. Mas foi algo que eu nunca levei muito a sério…

Um dia um amigo meu lá me convenceu a dar um primeiro passo e falar com uma agência, a L’Agence, com quem ainda hoje trabalho. Fui lá numa quarta-feira, lembro-me perfeitamente, e na sexta já estava a fazer um anúncio. Correu bem melhor do que eu estava à espera… (Risos.)

Desde então, nunca mais paraste?

Não foi assim tão fácil… Ou tão fluido, digamos.

Comecei por fazer spots publicitários. Essencialmente anúncios de televisão e trabalhos mais “comerciais”, por assim dizer. Aconteciam de forma esporádica, tanto que durante um ano tive que conciliar o meu trabalho como modelo com os meus restantes compromissos profissionais. Houve muitos dias em que de manhã era professor de surf, à tarde monitor e ao final do dia saía a correr para um casting. (Risos).

Quando é que o professor de surf se tornou modelo a tempo-inteiro?

Os meus primeiros shoots para clientes da indústria da moda só aconteceram quase um ano depois daquela tal quarta-feira. Fiz uma capa de uma revista e desde então que comecei a ser requisitado com muita mais frequência e inclusive fora de Portugal. Tinha chegado a hora de assumir a aposta e o compromisso a tempo-inteiro.

Hoje em dia estou agenciado em dez países, incluindo Espanha, Itália, Alemanha, Brasil, Reino Unido e Estados Unidos, entre outros. A maioria dos trabalhos que faço são além-fronteiras. Muitos aeroportos já conheci e muitas milhas já acumulei… (Risos.)

Alguma vez achaste possível?

Acho que ainda hoje me estou a habituar à ideia… (Risos.)

Muita gente vê as capas de revista, os tapetes vermelhos, e imagina que a vida de um modelo é um mar de rosas. Estão longe da realidade?

As experiências que tive, as pessoas que conheci e com quem trabalhei, os países que visitei, os amigos que fiz… Não posso estar mais agradecido. Tem sido incrível.

Mas é claro que existe sempre o reverso da medalha. Não é um mar de rosas, claro que não. Como em tudo, é uma luta. Uma luta diária.

Fala-nos um bocado sobre o que acontece “por detrás das cortinas”. Descreve-nos essa luta.

Lembro-me do meu primeiro casting à séria, quando estive a viver em Milão, durante os primeiros meses da minha carreira. Era um cliente importante, que procurava um homem alto, moreno, de cabelo encaracolado e com barba. Era a minha cara.

O casting era num quarto andar de um prédio sem elevador, lembro-me perfeitamente. Quando lá cheguei, estavam sentados à porta do prédio quatro homens altos, morenos, de cabelo encaracolado e com barba. Quatro “Nunos”, basicamente… Mas vá lá, eram só quatro.

Quando abri a porta percebi que não eram bem quatro. Eram os quatro que não cabiam no prédio! Os outros faziam fila pelas escadas acima, até ao quarto andar. Eram 200 “Nunos”, 200 homens altos, morenos, de cabelo encaracolado e com barba.. (Risos.)

A concorrência é imensa. Não era raro fazer uma mão cheia de castings por dia, muitas vezes a dezenas de quilómetros de distância uns dos outros, e eram quase sempre assim. Muita expectativa, muita ansiedade, muita desilusão. Esse lado pouca gente conhece. Os castings, as viagens, os aeroportos, as malas às costas.

Entre esses tais duzentos “Nunos”, muitos acabavam por escolher o “verdadeiro” Nuno. O que é que achas que te destacou nessas alturas?

Aprendi rapidamente que a energia com que ia para os castings tinha um papel importantíssimo. O meu estado de espírito. A aura que transmitia.

É certo que nesta indústria o aspecto físico tem um papel fundamental, mas há uma vertente emocional importantíssima, como em tudo. Mais alto, menos alto, mais barba, menos barba, o que é que fará um cliente escolher este ou aquele modelo? É impossível desligarem-se de factores emocionais no momento da escolha.

Eu sou bastante transparente, quando me sinto bem, nota-se. Mas todos temos dias maus, e nesses dias tenho a certeza que de alguma fora o meu estado de espírito também se reflete na minha energia, nas emoções que transmito, e mesmo nas fotografias que tiro.

Como é que te preparas para esses dias?

Hoje invisto muito no meu equilíbrio emocional. Um amigo meu, Psicólogo, disse-me uma coisa que nunca me esqueci: “Da mesma forma que trabalhas e preparas o teu corpo num ginásio, podes preparar a tua mente. Há ferramentas que são autênticos ginásios para a mente…”. A Psicologia é uma delas. É algo no qual invisto, e é talvez o investimento mais importante que fiz até hoje.

Podes falar-nos um bocado sobre a tua experiência com a Psicologia?

Trabalho com um Psicólogo há quase um ano. Tem-me ajudado imenso. Ajudou-me a entender e a lidar com as minhas emoções e acima de tudo a conhecer-me melhor.

Todos nós passamos por fases na nossa vida em que nos sentimos mais fragilizados. Seja por razões profissionais, afectivas, familiares, enfim. No meu caso, sempre tive alguns problemas de ansiedade e a minha mudança de carreira acabou por contribuir com a sua quota-parte.

Durante muitos anos tive uma vida relativamente estável, não só financeiramente como emocionalmente. Quando comecei a trabalhar como modelo a minha vida deixou de ter tanta previsibilidade. As incertezas inerentes à minha profissão acabavam por alimentar a minha ansiedade, que por sua vez alimentava algumas dúvidas: “Será que vou conseguir aquele trabalho importante? Onde vou estar no próximo mês?..”. São variáveis que hoje reconheço como “incontroláveis”, mas tive que aprender a lidar com isso.

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É comum na tua indústria? Conheces outros modelos que o façam?

Pelo menos que eu saiba, não. Não é muito comum. Acho que ainda existe muito estigma quanto à saúde mental e emocional, especialmente aqui em Portugal. O que está totalmente errado. Acho que toda a gente devia estar aberta a experimentar.

Precisamos de dedicar mais tempo a nós próprios. Precisamos de conseguir olhar para a nossa vida de um outro ângulo e perceber o porquê de nos sentirmos assim ou assado, o porquê de termos medo disto ou daquilo, qual a origem dessas emoções, e aprender com isso.

Que mais é que fazes pelo teu bem-estar?

O surf é o meu escape. Quando regresso “à base”, o Porto, tento surfar sempre que posso. Há qualquer coisa no surf que não encontro em mais nenhum desporto. Acho que é o facto de estar à mercê de algo tão maior do que eu, a natureza. Faz-me sentir um grão de areia. Ajuda-me a desligar e manter os pés no chão.

Sei que criaste um projecto teu, também de certa forma ligado à moda. A Maison Nu Mar. Fala-nos um bocado sobre isso. Como é que tem corrido?

Tem corrido muito bem! Para quem não conhece, a Maison Nu Mar é uma marca, um conceito, um life style, inspirado nas experiências que tenho tido pelo mundo fora ao longo destes últimos anos.

Hoje materializa-se numa linha de joalharia essencialmente dedicada a homens, mas também muito usada por mulheres. Colares, anéis e pulseiras de prata, muito minimalistas e feitas essencialmente de forma artesanal, o que é giro porque todas as peças são realmente únicas.

No futuro espero poder começar a desenhar outras peças, acessórios ou até roupa, tudo sob o “telhado” de inspiração que é a “casa” Nu Mar.

Onde é que podemos encontrar a Maison Nu Mar?  

Convido-vos a seguir a marca no Instagram (@maisonnumar) e para aqueles que vivem no Porto, podem encontrar algumas das minhas peças na Surf Shop GRUA, em Matosinhos.

Zenklub

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Proporcionar um estilo de vida mais saudável e permitir que as pessoas tomem controlo da sua saúde emocional e bem-estar é o objetivo do Zenklub. Para além das matérias no blog, no nosso website poderá consultar um psicólogo por vídeo-chamada, esteja onde estiver. São mais de 30 psicólogos a um clique de distância.
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