Temos tido o privilégio de conversar com convidados híper-interessantes no Sair da Casca. Todos com percursos e histórias diferentes. Todos singulares. Esta semana não fugimos à regra e recebemos a Joana Pinho, Project Lead na Farfetch e Ex-Googler. Entre esta sua nova aventura profissional e a anterior, conseguimos convencê-la a interromper o seu ano sabático para se juntar ao Zenklub durante seis meses.

Ser singular é uma coisa.. Outra coisa é interromper um ano sabático, de livre vontade, para voltar a trabalhar. Ainda por cima connosco, no Zenklub. O que é que te passou pela cabeça?

Quando decidi tirar um ano sabático quis expor-me a experiências diferentes daquelas a que eu estava habituada a viver no meu dia-a-dia. Não é obrigatório largar o mundo corporativo por completo, abrir um bar de praia e viver feliz para sempre. Diria até que é bastante raro. (Risos.)

Essa pausa da rotina das “nove às seis” foi muito importante para mim. Indispensável na altura. Precisava de tempo para me realinhar, viajar, ver outras coisas, tratar da minha saúde mas também para parar e pensar nos passos seguintes.

Ao final de uns meses, quando as viagens acabaram, senti vontade de me voltar a desafiar e a oportunidade de me juntar a vocês surgiu na hora H. Para além da equipa, parte da qual já conheço há mais de 10 anos, o que mais me atraiu foi a missão, em que acredito com todas as forças. Sou a maior embaixadora da importância de investirmos no nosso bem-estar intelectual, emocional. Esse investimento, em particular a Psicologia, teve uma importância enorme na minha vida, e ainda tem.

Fala-nos sobre o teu primeiro contacto com a Psicologia. Como é que tudo começou?

Acho que a minha primeira sessão aconteceu sem querer, sem eu saber.

Recém-chegada ao meu segundo curso universitário, gestão, depois de um ano em Engenharia Biomédica, quis experimentar uma “consulta” de orientação vocacional. Não tinha um plano definido para o meu futuro, ou pelo menos tão definido quanto eu achava que devia ter. Gostava de fazer tudo, queria explorar tudo, mas não tinha nenhuma vocação profissional em particular. Sempre fui assim. Hoje percebo que é absolutamente normal e uma inconformidade saudável, mas na altura achava que era um problema gravíssimo.

Entrei na tal “consulta” sem saber sequer quem estaria do outro lado. Uma professora? Um psicólogo? O meu palpite era que ia fazer um daqueles testes psicotécnicos manhosos que encaminham 90% das pessoas para funções de gestão… (Risos.)

O que é que acabaste por encontrar do outro lado?

Do outro lado encontrei uma Psicóloga incrível e que, olhando para trás, teve um papel crítico naquele momento. O “clique” foi quase imediato. Em pouco mais de dois minutos já lhe estava a contar a minha vida toda. Fi-lo porque quis, porque me senti confortável em fazê-lo, não porque era “obrigatório” como algumas pessoas imaginam. Um assunto levava a outro e rapidamente identificámos algumas questões que podíamos trabalhar, começando pelo meu perfil notoriamente mais ansioso.

Entrei para uma consulta de orientação vocacional que acabou por ser tudo menos isso. Gostei tanto que durante muito tempo conversávamos quase semanalmente. O controlo da minha ansiedade foi a minha primeira “pequena-grande” vitória, de entre muitas outras que conquistei graças a essas sessões.

O que é que achas que motivou esse “clique” quase imediato?

Empatia. Senti uma enorme empatia logo na primeira sessão. Não sei bem identificar porquê. Tenho noção que tive alguma sorte, claro, percebo que esta empatia também é algo que se constrói.

Acredito que a dinâmica dela, naquele momento, era a certa para mim, para a minha personalidade. Não temos todo o mesmo perfil. Existe esse processo de tentativa e erro que pode ser dispendioso e até desencorajador. Ajuda ter uma ferramenta como o Zenklub, onde posso ler sobre o profissional, ver os artigos que ele escreveu, ver um vídeo de apresentação, enfim.

No meu caso, encontrei alguém que rapidamente percebeu que eu preferia explicações lógicas, quase científicas, para tudo. Sobre a ansiedade por exemplo, mostrou-me artigos e ensaios científicos que me ensinaram o porquê do meu corpo se comportar de determinada forma. Depois sugeriu-me exercícios de combate a esses sintomas. Pode parecer uma coisa simples, mas são ferramentas de controlo poderosíssimas e muito libertadoras. Embora não tenha precisado de as usar, tenho-as “no bolso” até hoje.

E orientação vocacional, chegaram a trabalhar essa vertente?

Se encontrei a resposta à pergunta “o que quero ser quando for grande”, não. Nem por isso. Mas deixei de procurar essa resposta há algum tempo, se calhar desde então. Acredito que a resposta a essa pergunta está em constante construção, a cada mudança, a cada novo desafio.

O trabalho de autoconhecimento que fizemos deu-me as ferramentas que precisava para ir construindo essa resposta. Hoje percebo melhor as minhas motivações, em que circunstâncias é que me sinto desafiada, o que é que me faz sentir realizada, e aquilo que, pelo contrário, me desmotiva ou frustra. São estas respostas que me fazem saber por onde ir.

Quase uma década depois, as tuas sessões continuam?

Mudei-me para Lisboa uns meses depois, mas levei comigo muitas das “lições” que fui acumulando ao longo das minhas sessões. A frequência das nossas conversas foi diminuindo, até que interrompemos.

Uns anos mais tarde, já a trabalhar na Google, surgiu uma oportunidade importante para a minha carreira. Caso eu aceitasse, teria que sair de Portugal e mudar-me para Dublin. Perante a importância da decisão e as dúvidas que me preenchiam a cabeça percebi rapidamente que o melhor que tinha a fazer era voltar a recorrer à ajuda de um profissional – e mais uma vez tive muita sorte com a Psicóloga que encontrei.

A família e os amigos têm um papel insubstituível, claro – foi uma fase de infinitas horas de conversa com a minha melhor amiga, com quem viva na altura – mas também nada substitui a ajuda de um profissional. Alguém que nos guie de forma isenta. Alguém cuja experiência já lhe proporcionou dezenas de conversas e situações semelhantes. Precisava de alguém que me fizesse as perguntas certas, da forma certa, no momento certo e me ajudasse a relativizar o peso e impacto das minhas decisões.

Ficaste ou aceitaste o desafio?

Aceitei. Durante quase dois anos trabalhei na Google em Dublin. Foi uma experiência absolutamente incrível e que muito influenciou a minha forma de estar e de ver o mundo.

Enquanto viveste lá sei que continuaste com as tuas sessões, mas online.

Certo. O Zenklub ainda não existia infelizmente, nem as facilidades que a plataforma oferece, mas procurei meios alternativos. Whatsapps, Skypes, etc.

Quis continuar o trabalho que tinha começado e era importante poder expressar-me em português, também. Ainda hoje, estou no Porto mas faço sessões com uma Psicóloga que está em Lisboa.

Muitos dos utilizadores do Zenklub são expatriados. Como é que as tuas sessões online te ajudaram durante essa fase, em que estavas longe de casa?

Vivia bem com a minha dose de saudades e distância. Eram saudáveis. Estava longe, mas não estava do outro lado do mundo. Vinha a Portugal com muita frequência. Maioritariamente em trabalho, mas dava sempre para matar saudades da família, dos amigos e da comida! Essa parte estava sob controlo. (Risos.)

Quando vives sem grande parte da tua estrutura – família, amigos ou namorado – experimentas um nível de vulnerabilidade e disponibilidade maior do que habitual. Não só perante os outros, mas perante ti próprio. São condições ideais para te conheceres melhor e para cresceres.

Tive a sorte de trabalhar numa empresa com uma cultura que valorizava largamente o bem-estar e o desenvolvimento pessoal. Era encorajado, de forma quase provocatória até, no melhor dos sentidos. Conheci várias pessoas que à segunda-feira faziam psicoterapia, às quartas aprendiam italiano e às quintas dançavam bachata, por exemplo. Estava rodeada de pessoas com histórias de vida impressionantes e carreiras inspiradoras. Aprendia com eles, crescia com eles e no fundo ia conhecendo-me com eles. As minhas sessões tornaram-se um ritual semanal importantíssimo, eram 60 minutos só meus, em que processava esta minha jornada de descoberta e crescimento, aí sim, de uma forma mais estrutural e até filosófica.

Acabaste por regressar a Portugal. Olhando para trás, como te sentes?

Permanentemente surpreendida pelo rumo que a vida toma, que quase sempre não é o esperado ou planeado. Sou hoje muito mais capaz de saber escolher o melhor para mim, aquilo que me faz feliz. É com essa premissa, cada vez mais clara, que vou fazendo as minhas escolhas, agora pensadas a dois..

Vivi dois ou três anos de crescimento e descoberta pessoal, e agora estou a viver uma descoberta completamente diferente. Aprendo e cresço muito com o António, o meu namorado, todos os dias. No fundo voltas a conhecer-te e a redesenhar aquilo que queres para ti, e para o outro. Sou das pessoas que acreditam que o amor, nas suas várias formas, é o maior catalisador do crescimento e da evolução humana.

Para terminar. Tens alguma dica de bem-estar que queiras passar a quem nos lê?

Nunca subestimar a importância de conversar, expor, partilhar ou apenas e só parar para pensar. Em Portugal temos um longo caminho a percorrer nessa direcção. Existe demasiado estigma em relação à saúde emocional.

É normal termos consultas médicas de rotina e prevenção, é normal fazermos exercício para mantermos a forma física, mas por algum motivo ainda não é assim tão normal reservarmos tempo para cuidarmos da nossa saúde mental. Não exercitamos estes “músculos” que precisamos para vivermos uma vida mais completa, mais equilibrada e feliz.

Todos temos áreas da nossa vida que podemos melhorar. Se sentimos que está tudo bem, óptimo, melhor ainda. Essa “ausência de problemas” só significa que estamos em condições ideais para crescer, para nos conhecermos, para aprendermos mais sobre nós e sobre os outros.

Experimentem uma sessão de Psicologia ou Coaching. Garanto-vos que vão adorar.

Zenklub

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Proporcionar um estilo de vida mais saudável e permitir que as pessoas tomem controlo da sua saúde emocional e bem-estar é o objetivo do Zenklub. Para além das matérias no blog, no nosso website poderá consultar um psicólogo por vídeo-chamada, esteja onde estiver. São mais de 30 psicólogos a um clique de distância.
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