Nesta edição do Sair da Casca recebemos a Bárbara Moreira, fundadora do Projecto LAR, uma inovadora iniciativa de acção social com cartas para dar. Uma “eterna inconformada”, como a própria se descreve, que prescindiu da estabilidade de uma carreira na área do Marketing para investir em quem realmente precisa. Vamos conhecer essa história.

Fala-nos sobre o Projecto LAR. Qual é a vossa missão?

O LAR é um projecto de acção social, dedicado à integração de famílias de refugiados e migrantes, assim como famílias do país de acolhimento, Portugal, altamente carenciadas.

O projecto tem por base um negócio agrícola sustentável e replicável em várias zonas do país. Em parceria com várias entidades e organizações de referência – como a JRS e a PAR, por exemplo – recebemos famílias com gosto pela agricultura e pelo meio rural, damos-lhes formação e oferecemos-lhes a oportunidade de participarem num negócio sustentável.

Na Guarda, onde vamos dar o kick-off do projecto, contamos receber quatro famílias que irão explorar três hectares de plantações de groselha, goji e açafrão. Cabe-nos a nós garantir que a produção destes terrenos é colocada no mercado, para assegurar a remuneração destas famílias e a viabilidade financeira do projecto. Nesse sentido, estamos a trabalhar para fechar parcerias importantes com a grande distribuição.

Como é que nasceu o projecto?

Como quase tudo, começou como uma ideia por lapidar, em bruto. A primeira versão da ideia surgiu há cinco ou seis anos, quando trabalhava na SONAE.

Todos os anos havia um “concurso” interno, vamos chamar-lhe assim, onde vários desafios eram colocados aos colaboradores e todos tinham oportunidade de submeter ideias para os resolver. Era giríssimo. Toda a gente podia concorrer, desde o estagiário de verão ao CEO.

Houve um ano em que submeti uma data de ideias, devia estar inspirada. De entre as ideias selecionadas, duas foram minhas. Na altura lembro-me de pensar: “Talvez esta minha cabeça seja mais criativa do que eu acho…” (Risos.) Escolhi focar esforços numa área que sempre me moveu, a sustentabilidade e a acção social.

Já há algum tempo que participava em várias iniciativas de apoio à população sem-abrigo aqui no Porto, e com esse “desafio” em mente surgiu a primeira versão do modelo de integração que é hoje o Projecto LAR. Via tantos terrenos e casas ao abandono nos arredores da cidade, porque não rentabilizar esses activos e gerar riqueza para aqueles que mais precisam?

Essa “primeira versão”, como correu?

Não chegou sequer a correr.. (Risos.) Rapidamente percebi que através do modelo que eu tinha idealizado, não iríamos conseguir reintegrar estas pessoas. Pelo menos com as mesmas taxas de sucesso de outros projectos semelhantes.

Subestimei o elo que as pessoas criam com a cidade, com a sua freguesia, mesmo vivendo em situações de risco como era o caso. É praticamente inquebrável. Como é que eu ia conseguir convencer estas pessoas a mudarem-se para os arredores da cidade?

Não chegou a sair do papel, mas foi um enorme processo de aprendizagem. Tive oportunidade de trabalhar com pessoas e associações fantásticas. Há projectos incríveis em prol dos sem-abrigo. Não posso deixar de destacar a Plataforma +Emprego.

Encontraste depois um novo rumo para o projecto?

Nunca deixei de acreditar neste modelo de integração. Não só pelo valor que podemos acrescentar à vida das pessoas que acolhermos, mas também pelos recursos que o país nos oferece e pelo que podemos fazer para combater a desertificação do interior de Portugal.

Entretanto intensificou-se a crise dos refugiados, uma realidade que se tornou cada vez mais próxima de mim e da qual nunca me consegui desligar. Foi o gatilho que motivou um redirecionar do projecto.

Acção Projecto LAR

Uma ideia por lapidar transformou-se num trabalho a tempo-inteiro. Lembras-te do momento em que tomaste essa decisão? Ou foi algo que se foi alimentando?

Não houve um momento Eureka. Fui navegando este sentido de propósito e já há algum tempo que ameaçava comprometer-me com esta mudança. Até que um dia saí da casca(Risos.)

Na minha cabeça batalhava entre a estabilidade da minha carreira e o propósito de colocar as minhas competências ao serviço de quem realmente precisa. Esse debate durou algum tempo, mas não o enfrentei sozinha. Envolvi também os meus pais, claro, que investiram tanto em mim e na minha educação. Devo-lhes esse respeito e muito mais. Devo-lhes tudo.

Hoje sentes-te mais realizada? Mais alinhada com o teu propósito?

Cada vez mais. Penso muitas vezes sobre o meu propósito. Não acho que haja uma meta final por assim dizer, um limite. É um caminho que se vai percorrendo. O objectivo é chegar ao final do dia e sentir que dei um passo em frente.

Como é que te preparaste para este novo desafio?

Há sempre o reverso da medalha. Trabalhar muitas vezes sozinha por exemplo, remotamente. O stress. A responsabilidade. Se eu falhar, se o projecto falhar, quantas famílias ficarão por integrar?

Pode parecer um contra-senso, mas o que me ajudou foi dedicar mais tempo a mim própria. Comecei a fazer mais exercício, alimentar-me melhor, incutir mais hábitos saudáveis. Tento viver uma vida mais regrada, mais consciente do meu bem-estar. Sem equilíbrio, nada é possível. Investi em mim para poder investir nos outros.

Disseste que não enfrentaste esta mudança sozinha. Quem é que te ajudou no processo?

A minha família, acima de tudo. Tanto são os meus cheerleaders como me ajudam a manter os pés assentes no chão. Os meus amigos também, claro, uma fonte de motivação infinita.

Há também um ritual do qual não abdico e que há muito me acompanha: as conversas com o meu Psicólogo. A Psicologia sempre me ajudou a conhecer-me melhor, entender aquilo que realmente me move. Nesta fase de mudança, ajudou-me principalmente a comprometer-me com os meus objectivos e com uma vida mais equilibrada.

Gostamos sempre de pedir um exercício ou uma lição que possamos passar a quem nos lê. Da tua experiência com a Psicologia, qual é a primeira coisa que te vem à cabeça?

Esta questão do equilíbrio. Temos tendência a “dobrar a aposta” na área da nossa vida que mais nos ocupa, que mais nos preocupa. Quando o trabalho ganha proporções desmedidas no equilíbrio da nossa vida, o nosso instinto é dedicar ainda mais horas no escritório. Não faz sentido.

Se uma área da nossa vida assume proporções desmedidas, devemos investir em todas as outras. A maior parte das vezes a primeira coisa na qual deixamos de investir é em nós próprios.

Para terminar, e voltando ao Projeto LAR: como é que os nossos leitores podem contribuir?

Podem tornar-se sócios do Projeto LAR por apenas 12€ por ano! Visitem o nosso website – www.larproject.com – onde explicamos exatamente o que fazer para doar ou voluntariar.

Também queremos ajudar! Criámos um voucher com o código “LAR” que oferece 20% de desconto numa primeira sessão no Zenklub, com qualquer um dos nossos especialistas. Por cada sessão marcada com o código vamos doar-vos 6 meses de quotas.

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