Esta semana conversámos com mais uma convidada especial no Sair da Casca. Quantas vezes sonharam em transformar o vosso hobby numa carreira a tempo-inteiro? Pois bem, a Inês Pais conseguiu essa proeza, mas foi preciso pôr a mão na massa. Literalmente. Conheçam a Food Blogger e a mente por detrás da lente e das receitas do The Photo Bite.

Fala-nos sobre o teu projecto, The Photo Bite. Para abrir o apetite! Como é que tudo começou?

Sempre adorei cozinhar. Não só a parte de preparar e juntar os ingredientes, essa é a parte fácil. (Risos.) Gosto de tudo o que envolve gastronomia: interessa-me a origem dos ingredientes, os sabores, o impacto nutricional que têm. Tudo. É o meu hobby. O The Photo Bite começou por ser um perfil de Instagram que criei para documentar, em fotografia, as minhas aventuras gastronómicas.

Como é que tem corrido e quais são as últimas novidades?

Ao longo do último ano e meio a página foi ganhando cada vez mais tracção. Hoje, para além da vertente fotográfica, o The Photo Bite é também um blog de receitas saudáveis, maioritariamente vegetarianas ou veganas, e é o projecto ao qual me dedico a tempo-inteiro.

O feedback tem sido incrível. É óptimo poder inspirar os Portugueses a investir numa alimentação mais saudável e consciente. Tenho um website também, inaugurado a semana passada, é a novidade mais fresca que vos posso dar. (www.thephotobite.com) Visitem!

Antes desta tua investida no mundo da gastronomia, foi a Psicologia que captou a tua atenção. Conta-nos essa parte da história.

Nunca fiz um único teste psicotécnico. Sempre que me propunham fazer, eu tinha a resposta na ponta da língua: “Não preciso. Vou ser Psicóloga…”. (Risos.) Foi assim desde os meus 14 anos, até entrar na faculdade. Para estudar Psicologia, claro.

Fascina-me a mente humana. As mil variáveis que nos compõem, como é que interagem, o que é que nos diferencia uns dos outros, e o que é que nos une. Mais tarde percebi que é um interesse puramente académico.

Mas era o curso que procuravas? Ou arrependes-te de não ter feito o teste?

Não me arrependo, não. Talvez devesse ter feito o teste, nem que seja por curiosidade. Mas acho que ninguém me iria demover da minha escolha, muito menos uns resultados num papel A4. (Risos.)

Adorei o curso. Super interessante. Muito teórico, é um facto, mas ao mesmo tempo muito tangível. Aprendi imenso e satisfiz grande parte da minha curiosidade pela mente humana.

Depois da tua licenciatura, o que é que se seguiu?

Não precisei de muito tempo para perceber que não me identificava com a realidade prática e diária da Psicologia Clínica. Não tenho esse perfil. Adoro a ciência, mas acho que emocionalmente não iria suportar a vida de consultório.

Um psicólogo tem uma vocação especial, como um médico. Por um lado tem que ser altruísta e entregar-se aos seus pacientes, e isso eu tenho, talvez até em excesso. Mas em contraste, um psicólogo tem que ser capaz de compartimentalizar. Acho que seria incapaz de me desprender das questões dos meus pacientes e de não as levar comigo para casa, na minha cabeça.

Quando chegou a altura de escolher um mestrado, afastei-me definitivamente da Psicologia Clínica e acabei por escolher a Psicologia das Organizações. Procurava um ambiente de trabalho mais positivo, mais dinâmico, em equipa, e principalmente longe dos consultórios. Foi exactamente isso que encontrei no meu primeiro emprego, e nos dois anos seguintes, enquanto trabalhei em consultoria de recursos humanos.

Sobre Psicologia das Organizações: Se tivesses que escrever uma receita para o sucesso de uma empresa, que importância atribuirias ao bem-estar dos colaboradores?

Fundamental. Seria o ingrediente que unia todos os outros, para dar consistência ao prato, continuando essa tua metáfora. (Risos.)

Acho que há dois ângulos pelos quais se pode pensar este assunto: o bem-estar é importante porque gera resultados, bottom-line, e é importante por uma questão de responsabilidade social.

Quanto a resultados, está mais do que comprovado que o bem-estar emocional dos colaboradores é um factor de enorme influência no que diz respeito à produtividade. Mas os ganhos não se registam apenas via produtividade. O bem-estar impacta também a retenção dos colaboradores e todos os custos associados a um turnover alto, impacta os custos de saúde ao prevenir baixas médicas, impacta todo o employer branding, enfim, impacta muitos factores para os quais se olha cada vez mais atentamente.

Em paralelo, temos a responsabilidade social. Aqui não precisamos de olhar tanto a “números”. Qual é a influência que o nosso emprego tem sobre todas as outras áreas da nossa vida? A ideia do trabalho das nove às cinco, que não se leva para casa, infelizmente já faz parte do passado. A influência do trabalho sobre as nossas vidas é tal, que deve ser responsabilidade das empresas cuidar da experiência do colaborador de uma forma mais completa: pensar no bem-estar não só dentro do escritório, nem apenas das nove às cinco.

Depois de dois anos de consultoria de RH, um novo rumo. O que é que te fez pensar no The Photo Bite não apenas como um hobby, mas como um trabalho a tempo-inteiro?

Não houve um momento “eureka” nem nada que se pareça. Foi um processo de introspecção. Durante os meus primeiros anos de trabalho estive na área de recrutamento e selecção, o que me colocou cara-a-cara com muitos miúdos em início de carreira. Falávamos muito sobre as motivações deles, os objectivos que tinham, e eram essas conversas que me faziam pensar. O que é que realmente me motiva? O que é que me faz saltar da cama de manhã?

No início adorava o que fazia, sentia uma aprendizagem enorme. Mas com o passar do tempo essa aprendizagem foi-se estagnando, o que é normal. Não havendo o factor aprendizagem, fui-me apercebendo que os dias passavam e eu não me sentia mais realizada.

Sempre quis que a minha carreira se cruzasse com a minha paixão pela gastronomia, mais cedo ou mais tarde. Mas “querer” é uma coisa. Sou sonhadora, mas também sou realista. Infelizmente, não basta apenas “querer”, é preciso uma estratégia sustentável. Essa validação tive-a à medida que a página ia crescendo e sempre que ouvia o feedback dos meus seguidores. Percebi que estava a acrescentar valor à vida das pessoas. Era a validação que o projecto precisava e era a validação que eu precisava.

Para muita gente, seria difícil assumir o compromisso de uma mudança de carreira, e de vida, como a tua. O que é que te ajudou nesse processo, e que dicas é que gostavas de nos passar?

A realização pessoal e a felicidade não se ligam e desligam como uma lâmpada num interruptor. Não acredito na história do “amanhã vou-me despedir e vou ser feliz”… Não. A felicidade constrói-se. Imagino-a como uma viagem de realização pessoal, em que todos os dias temos que olhar para trás e pensar: “Será que hoje caminhei na direcção certa?..” Se sim, óptimo, vamos acelerar. Se não, há que mudar de direcção.

Se estão à espera de um momento “eureka”, não esperem. Corram atrás da validação de que precisam. Testem. Tirem conclusões e aprendam. Para isso precisamos de dedicar mais tempo para nós próprios. Só para nós. É um ritual essencial. Desligar o piloto automático e parar para pensar. Questionar aquilo que provavelmente já tomamos como garantido. O que é que realmente me motiva? O que é que gostava de mudar na minha vida? Como é que o posso fazer? Encontrem essas respostas e corram atrás delas!

Zenklub

Zenklub

Proporcionar um estilo de vida mais saudável e permitir que as pessoas tomem controlo da sua saúde emocional e bem-estar é o objetivo do Zenklub. Para além das matérias no blog, no nosso website poderá consultar um psicólogo por vídeo-chamada, esteja onde estiver. São mais de 30 psicólogos a um clique de distância.
Zenklub