Por norma são poucas as pessoas que procuram terapia por se sentirem calmas, equilibradas ou na plenitude das suas capacidades. O habitual é elas estarem inundadas e saturadas com determinadas emoções que as fazem, justamente, ir em busca de ajuda especializada.

A experiência de nos sentirmos internamente fragilizados, de sermos facilmente arrastados pelas emoções das outras pessoas ou sufocados pelas próprias, pode tornar-se doloroso, confuso e desgastante. De facto, quando nos encontramos numa fase emocional exacerbada, fica realmente difícil atingir objectivos, sonhos ou projectos. Sentimo-nos de tal modo pequenos e dispersos que facilmente somos tomados pelas vicissitudes da vida, ficando à mercê de forças externas que ficam além da nossa vontade. Ou então a nossa auto-estima fica de tal maneira arrasada que nos convencemos que perdemos irremediavelmente o controlo da nossa vida.

Um dos maiores e mais constantes desafios das nossas vidas, passa por conseguir regular adequadamente as emoções, e, todos nós sem excepção, lutamos e penamos para o conseguir. E porquê..? Porque intuitivamente as nossas células sabem que ao chegar-se a esse estado de equilíbrio e regulação, todo o nosso organismo desfrutará de maior bem-estar, clareza, saúde, energia, criatividade, leveza, espaço, entre outros.

Mas isto é tudo menos fácil, até porque nesta sociedade existe uma forte tendência para se ensinar e formatar as pessoas a pensarem e a comportarem-se de determinada maneira, raramente havendo espaços ou gente que nos ensine a sentir, escutar e trabalhar com o mundo interior de sensações e emoções que habitam o nosso corpo. Por outras palavras, quando as emoções afloram à nossa consciência (principalmente as mais desconfortáveis), surge na maior parte das vezes a tendência de não dar espaço para as escutar e compreender, pois rapidamente as queremos mudar, afastar, analisar, desvalorizar, enfim, reagir automaticamente a elas em vez de lhes oferecermos uma genuína companhia e importância.

Deste modo as coisas cá dentro tornam-se gradualmente confusas, ruidosas e cheias de interferências. A título de exemplo, quando estamos perante um chorrilho de lágrimas de tristeza respondemos muitas vezes dizendo “Tenho de parar com isto, eu não quero chorar mais!”. Ou então quando dizemos “Eu odeio esta raiva!”, algo que, ironicamente revela como a raiva está virada contra nós próprios. Por último, uma expressão do tipo “Eu receio que o meu desespero vá acabar comigo”, não deixa de mostrar a existência de um conflito interno. Outras pessoas há que estão tão identificadas com um ou o outro lado destas “guerras emocionais” – ficando ora exacerbadas ora anuladas – que não se apercebem que foram apanhadas no meio de um conflito interno de forças que busca em última analise a regulação emocional de todo o organismo.

Para este objectivo ser alcançado, torna-se vital compreender estas dinâmicas e estar disposto a criar um clima de democracia interna que permita encontrar espaço, sentido e direcção para todas estas forças. É que no fundo, dentro de nós não existem inimigos, apenas lados que não foram ainda reconhecidos e por norma, todos eles querem, à sua maneira, tentar ajudar-nos.

Zenklub Portugal

Mas como se cria este estado de “democracia interna”?

Em primeiro lugar passa por reconhecer que isto não é um processo orientado pela razão ou pelo pensamento, mas sim pelo que se sente e pelo que o corpo nos quer transmitir. Para além dos lados que fazem parte de um dito conflito interno, o corpo é a membrana, o palco, o espaço e o veículo que carrega tudo isto, ou seja, tudo aquilo que sentimos e necessitamos seja na relação connosco, com os outros ou com o ambiente, mas também tudo aquilo que pensamos ou achamos que devemos fazer na nossa relação com tudo. É ele que contém no seu ADN uma infinita sabedoria para nos ajudar ao longo da vida a processar as coisas e a encontrar a melhor resolução para o nosso bem-estar, principalmente se lhe concedermos um espaço e um tempo de escuta.

E como se aprende a fazer isto? Como se aprende a escutar o corpo?

Uma das coisas essenciais passa por limpar o espaço ou o meio através do qual comunicamos com o nosso corpo, para não haver ruido ou interferência. Tal como falar ao telemóvel, se não houver ligação, antena, se houver muito ruido ou interferência ou alguém nunca parar de falar, a comunicação não se processa, seja na expressão, na recepção ou no processamento de informação.

Existem muitas abordagens e técnicas que oferecem óptimas sugestões. As que aqui são oferecidas fazem parte de um método que nos ensina a escutar o que está vivo e a acontecer no nosso corpo. Deixamos aqui três sugestões como exemplo e orientação para ir praticando:

  • O Poder de Reconhecer – Reconhecer que as emoções estão aí consigo. Não queira mudar a emoção, não queira transformá-la, evitá-la ou ignorá-la. Também não basta só mencionar ou referir que ela lá está a título informativo, pois há que desenvolver uma presença que acolha internamente e autenticamente o que se passa.
  • Não-Saber – Não é fingir que não sabe, é não ter outro remédio senão não-saber mesmo. O que se passa no corpo é algo vivo e que acontece em directo e por isso não há meio de o controlar, antecipar ou decidir o seu desígnio ou destino. Pode contudo participar e co-criar com o processo. Dar tempo para que aquilo que o seu corpo está a sentir apareça e depois é que dá atenção às ideias, sentidos ou explicações que quer dar a isso. Mudar envolve abdicar da nossa necessidade de controlar todos os aspectos da nossa vida. A mudança é possível se tivermos com vontade e se a permitirmos acontecer (por vezes, estamos com vontade mas não permitimos que aconteça).
  • Presença – Trabalhar com o que se sente no corpo é parecido com trabalhar com um animal ferido ou uma criança assustada. Sabem que não lhe vão fazer mal mas estão assustados, tímidos ou encolhidos. Vá descobrindo assim qual o melhor modo de estar e de fazer companhia a esse “animal” ou “criança”. Sinta o que teria de acontecer para eles deixarem alguém aproximar-se. Por norma eles respondem muito bem a uma atitude gentil, amiga e sensível, por alguma razão isso faz com que se sintam seguros para se expressarem.

Obviamente que temos de ter em atenção situações excepcionais de catástrofe, crise ou trauma, onde a intervenção tem de ser mais directiva ou contentora. Mas para as situações do quotidiano isto serve perfeitamente. Resta agora praticar ou procurar alguém que ajude neste processo. Vai ver que encontra um GPS dentro de si que clarifica melhor o que se passa no seu território interior.

João da Fonseca

João da Fonseca

Sou um psicólogo clínico, psicoterapeuta e formador que sempre se maravilhou com as estrelas e com toda a imensa tapeçaria vibrante de vida que borbulha dentro de nós. Através de um processo relacional e experiencial, posso ajudar-lhe a ir ao encontro de si, dos outros e do mundo.
João da Fonseca

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