O Nuno é o segundo convidado da nossa série de conversas “o outro lado da psicologia”. Depois de dez anos a estudar e exercer Psicologia nos Estados Unidos, desde 2010 que está de volta a Portugal.

Comecemos pela sua aventura nos Estados Unidos. Quando é que tudo começou?

Aterrei em Janeiro do ano 2000. Tive a sorte de receber um convite dos meus tios, que na altura moravam lá, e não podia perder a oportunidade.

Ainda não tinha sido introduzido à Psicologia. Estava inclinado a estudar outras línguas e achei que podia aproveitar a viagem para investir no meu inglês. Com isso em mente inscrevi-me nalgumas cadeiras universitárias, uma das quais a Psicologia. Adorei.

Fui lendo livros, estudos, fomentando esta paixão pela Psicologia. Gostei tanto da experiência que acabei por me candidatar à Universidade de Massachusetts. Entrei. Parti para uma viagem de três meses e acabei por ficar dez anos.

Os Americanos e os Portugueses olham para a Psicologia de forma diferente?

Apesar do grande esforço feito em Portugal ao longo dos últimos anos, para combater o estigma associado à saúde mental e à procura da intervenção psicológica, continuam a ser evidentes as diferenças. Diria que a saúde mental é “consumida” de forma diferente.

A Psicoterapia é mais procurada nos Estados Unidos do que em Portugal. Especialmente em casos em que não existem patologias graves. Ou seja, as pessoas não precisam de estar depressivas ou com excesso de ansiedade para consultarem um Psicólogo.

Diria que nos Estados Unidos, e não só, as pessoas recorrem à psicologia também pelas suas virtudes preventivas, de crescimento e desenvolvimento pessoal e não só de forma reactiva. Sinto-me mal, vou ao médico. Não. Sinto-me bem, mas quero-me sentir ainda melhor…

O que é que nos impede, a nós Portugueses, de dar esse passo em frente em relação à saúde mental? É o nosso feitio? A nossa história?

(Risos) Diria os dois, entre muitos outros factores. Acredito que nos falta alguma educação em relação à saúde, e em dois aspectos em particular:

Primeiro, percebermos a complementaridade corpo-mente e a importância da saúde mental no nosso bem-estar. Devo tratar a minha mente da mesma forma que trato do meu corpo.

Segundo, aprendermos a importância de prevenir. Tomarmos as rédeas da nossa saúde e actuarmos proactivamente para melhorar e prevenir, em vez de esperar pelos sintomas para reagir. A forma tradicional de se “consumir” medicina está desactualizada: esperar pelos sintomas, recorrer a um médico para que este nos indique um medicamento, e esperar que os sintomas desapareçam.

Estou certo de que com o tempo chegaremos lá. Estamos a quebrar crenças, encarando e combatendo o estigma olhos nos olhos.

Zenklub Portugal

Agarrando numa questão que referiu: a proactividade. Mais recentemente focou-se no Coaching e na vertente de desenvolvimento pessoal. Porquê o Coaching? O que é que o atraiu?

Procurei formar-me em Coaching porque senti a necessidade de dar uma maior continuidade a projectos de desenvolvimento pessoal dos meus clientes.

Parte dos meus clientes chegam até mim com o objectivo de tratar determinada psicopatologia, seja ansiedade, seja depressão, ou outros transtornos. Depois de algumas sessões, conseguimos atingir um estado de equilibro emocional, de bem-estar, mas os clientes querem ir mais além. O Coaching deu-me algumas ferramentas que me permitem abordar esta segunda fase.

Quem é que pode beneficiar de uma consulta de Coaching? Qualquer pessoa?

Há duas exigências importantes: o equilíbrio emocional e a motivação para a mudança.

O equilíbrio emocional é indispensável. O Coaching não é uma ferramenta de combate a patologias do foro emocional. Não é uma ferramenta de ataque à depressão ou à ansiedade. Às vezes é retratado dessa forma, mas erradamente. Imaginemos o equilíbrio emocional como o alicerce de sobre o qual o cliente vai construir.

O segundo requisito importante é a predisposição e a motivação para a mudança. O processo de Coaching requer um trabalho proactivo da parte do cliente, substituindo alguns hábitos e crenças limitadoras por outras mais positivas e potenciadoras dos seus objectivos. Sem predisposição para a mudança, nada se faz.

Para quem desconhece o Coaching por completo, pode explicar-nos como seria uma primeira sessão?

A primeira sessão começa sempre com uma pequena explicação do que é o Coaching. É importante delinear as expectativas para o programa e enquadrar o cliente o mais possível, para que percebam o compromisso que irão assumir.

Costumo começar por explicar que o Coaching não é um regresso ao passado. Partimos do presente, de um estado actual, em direcção a um estado futuro, um estado desejado. Explico também que este é um processo que exige acção e responsabilização. Refiro sempre, e isto é importante, que o Coach não é um perito, não vai influenciar as escolhas do cliente com a sua opinião. Vai simplesmente ajudar na perseguição dos objectivos traçados pelo cliente.

Postas todas estas cartas na mesa, acabamos com uma avaliação do estado actual da vida do cliente. Atendo pessoas que chegam até mim em momentos diferentes das suas vidas. Alguns já têm objectivos definidos e precisam de superar determinados obstáculos. Outros, encontro-os numa fase anterior a essa: sentem algum descontentamento ou frustração, sabem que precisam de dar um passo em frente, só não sabem bem em que direcção.

Imagine que eu começo um programa de Coaching consigo amanhã. A partir de quando é que posso contar ver resultados positivos na minha vida?

A primeira sessão acaba com o assumir de um compromisso do cliente para os dias seguintes, não só perante o seu Coach, como perante si próprio. Um plano de ação ou trabalho de casa. Isto porque o programa de Coaching implica alterações comportamentais que encaminhem o cliente para a conclusão dos seus objectivos. Como referi, sem acção, nada se atinge.

Como tal, pequenas diferenças serão esperadas logo nos dias seguintes à primeira sessão.

Como estamos perto do Natal, queria perguntar-lhe se nos pode “oferecer” um exercício ou uma ferramenta, que possamos passar aos nossos leitores, para que entrem em 2018 a todo o gás?

Claro que sim. Tenho um em mente que acho que se adequa perfeitamente.

Aproximando-se o final do ano, sugiro sempre que as pessoas elejam pelo menos cinco objectivos para o ano seguinte. Estes objectivos não precisam de estar super bem definidos, é importante até que se possa construir em cima deles no futuro. No entanto, não basta pensarmos sobre eles. É obrigatório que estejam escritos e que permaneçam visíveis para nos lembrarmos do compromisso e mantermos foco.

Outra parte obrigatória deste exercício é a partilha dos objectivos. Partilhem com algum familiar, marido, mulher, amigo, partilhem-nos com o mundo se quiserem. A título de exemplo, eu e a minha esposa temos um quadro de ardósia na cozinha onde todos os anos escrevemos os nossos objectivo, envolvendo os nossos filhos no processo. Claro que sempre que alguém nos visita, a conversa acaba inevitavelmente por passar pela curiosidade de termos um quadro com metas e sonhos lá escritos. Isto ajuda-nos a mantê-los vivos e a fortalecer o compromisso. Permite-nos também monitorizar visualmente os objetivos, mantendo em mente aquilo que ainda nos falta fazer para atingir cada um deles.

Experimentem. Este pode ser o ano em que cumprem as vossas resoluções de ano novo.

Para terminar, pode contar-nos uma curiosidade sobre a Psicologia que pouca gente sabe?

Diria o seguinte: os psicólogos não eliminam emoções negativas.

Apesar de rotuladas como positivas ou negativas, a Psicologia ensina-nos que todas as emoções são necessárias e importantes para lidarmos com alguns dos nossos desafios diários. É normal sentir-se raiva perante injustiça. É normal sentirmos tristeza perante uma perda. A ansiedade por exemplo, na dose certa, é uma emoção importante para nos mantermos em alerta.

Contudo, quando certos estados emocionais perduram excessivamente no tempo e causam desequilíbrios na vida da pessoa (ex: tristeza que se transforma em depressão, ou ansiedade que se transforma em stress e burn-out), o psicólogo ajuda a promover capacidades e estratégias para identificar e gerir estas emoções.

O importante é perceber que este trabalho é bem mais eficaz se for feito preventivamente.

Nuno Pavão Nunes

Nuno Pavão Nunes

A minha missão é capacitar pessoas ajudando-as a acreditarem em si, a descobrirem o seu ponto de equilíbrio mental, a potenciarem o seu sucesso e inspirando-as para uma vida com maior propósito.
Nuno Pavão Nunes

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