Já alguma vez deu por si a sentir-se envergonhado e exacerbado de sentimentos de culpa ou a catalogar-se como “preguiçoso”, “fraco” e “inútil”..? Sente por vezes a presença de pensamentos a azucrinarem-no com expressões do estilo “tu devias”…”era melhor se”…”nunca mais faças isto”…ou “lá estás tu outra vez”…?

É claro que também pode ocorrer o caso deste tipo de discurso se dirigir para os outros ou para o mundo e raramente para si mesmo, mas regra geral, todo este género de expressões é criado por meio de um processo particular que aqui vamos apelidar de “crítico interno”. Todos nós, sem excepção, estamos sujeitos a este processo que por sua vez cria um impacto significativo na nossa consciência, modificando a qualidade das nossas percepções, escolhas e estados de espírito.

O “crítico interno” pode ser caracterizado como uma espécie de voz interior que profere comentários sarcásticos, duros, impacientes ou depreciativos, mas firmemente dirigidos. A sua missão passa por mostrar-nos como podemos estar a falhar nalguma coisa, a sermos inadequados ou mesmo “más pessoas”. Muitas vezes, sentimos também que temos a obrigação de controlar um determinado aspecto da nossa personalidade ou comportamento e é até possível ele estar presente sob a forma de um sentimento desconfortável que aparece cada vez que ouvimos um elogio ou uma mensagem positiva.

O “crítico interno” possui uma vocação especial para nos causar sentimentos de vergonha, desistência, apatia, letargia, depressão ou agressão, levando-nos muitas vezes a actos de rebeldia, reacções de fechamento e defensividade ou à criação de uma necessidade excessiva para atingir determinados objectivos. A sua presença impede-nos literalmente de nos expressarmos de forma livre e plena, de desenvolvermos os nossos talentos, de irmos ao encontro das outras pessoas ou de vivermos a partir do coração.

Quando estamos ocupados a tentar lidar com os seus “ataques” e “sequestros”, nós não conseguimos estar totalmente presentes nas nossas vidas, perdemos energia e percepcionamos erroneamente aquilo que se está a passar à nossa volta. Torna-se mesmo difícil responder ao – e no – momento presente, já que a sua influência faz-nos reagir com atitudes repetitivas, reactivas e automáticas, muitas vezes associadas a situações que nos aconteceram no passado.

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Ironicamente, os “críticos internos” parecem estar a zelar “pelo nosso bem” e fazem-no de um modo incessante como se tivessem a cumprir o dever mais importante do mundo. E não é de estranhar o tom paternalista que os acompanha já que a sua origem está muitas vezes associada a uma figura parental (ou de autoridade) ligada ao passado da pessoa. Todavia, outras vezes há em que o processo do crítico nasce a partir de uma determinada altura da infância, como se viesse ajudar uma criança vulnerável a sobreviver e a proteger-se de sentimentos que lhe são insustentáveis. Em certos casos, ele pode até representar um lado magoado de nós que tenha sido excluído ou não tenha sido amado ou aceite.

Mas na mesma medida em que tentam proteger algo precioso e vulnerável dentro de nós eles podem tornar-se muito drásticos na forma como nos tentam salvar ou avisar, acabando por deitar-nos abaixo o mais possível com a sua determinação. Eles mostram-nos o quão incapazes somos na maneira como lidamos com o mundo perigoso onde vivemos e avisam-nos das coisas terríveis que podem acontecer se não escutarmos os seus avisos e conselhos. Eles acabam por ter todo este poder porque nenhuma parte do nosso corpo deseja passar pelas terríveis experiências que ele profetiza.

De alguma maneira eles aprenderam que o medo tem o poder de provocar mudanças e manipulações no outro, mas a verdade é que o “crítico interno” é vítima da sua própria armadilha, sem realmente se aperceber do verdadeiro motivo que dirige as suas intenções. No fundo ele é guiado pelo medo e é por isso que tenta controlar os nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos, pois está de facto assustado com alguma coisa.

Ao sermos compassivos para com ele e ao escutarmos a dor que se esconde por detrás da sua dureza, poderemos obter bons resultados. Para isso é importante conhecê-lo um pouco melhor e para tal há que aprender a não nos identificarmos com ele, ou seja, tomarmos consciência de que nós não somos esta voz crítica e que ela é apenas uma entre muitas possibilidades que vivem na nossa consciência. Isto permite criar o distanciamento interno necessário para não estarmos fundidos com ele e assim, podermos direccionar a nossa atenção cuidadosamente de forma a poder sentir os seus medos, motivações e a necessidade que tem de nos prevenir sobre o risco que certos tipos de comportamento podem ter para nós.

Por outras palavras, ao criarmos este distanciamento do “crítico interno” vamos não só compreendê-lo melhor como manter a visão do todo, em vez de sermos tomados por ele. E porque é que é importante manter a visão do todo neste processo? Bom, porque assim percebemos que na mesma medida que existe um crítico dentro de nós, existe também um outro lado em nós que está a ser alvo das críticas.

Se nos debruçarmos um pouco mais sobre nisto, podemos facilmente compreender como o acto de criticar em si é uma tentativa de controlar comportamentos em relação a um outro lado. E qualquer tentativa de controlo busca algum tipo específico de resposta, mas na generalidade esta tentativa acaba por provocar uma reacção e não uma resposta. No geral, estas reacções dividem-se em três tipos que são a luta, a fuga ou o congelamento:

  1. Quando a reacção de luta é accionada, nós revoltamo-nos contra essas partes críticas, “Eu não sou estúpido!”, “Não quero saber! Vou fazer isto na mesma e que se lixem as consequências…quem gostar gosta quem não gostar que se amanhe!”. Estas partes revoltadas em nós reagem contra qualquer coisa que cause constrição ou constrangimento. Muitos de nós identificamo-nos com estes lados rebeldes. Eles podem oferecer-nos um sentimento de energia e poder que podem ser muito atractivos. Muitas das vezes eles são estimulados por meio da influência do álcool ou das drogas.
  2. Quando uma reacção de fuga é accionada, nós retiramo-nos da situação, procuramos refúgio numa bebida ou num chocolate, a trabalhar incessantemente, mergulhando num livro ou na prática de desportos…
  3. Quando uma reacção de congelamento é accionada, nós podemos apagar, ter uma “branca”, ficar confusos, adormecidos, esquecidos.. É como se algo cá dentro colapsa-se e nós nos afundássemos em sentimentos de vergonha, culpa, depressão, auto-dúvida, exaustão, derrota. Como se esta parte de nós concordasse de alguma maneira com o que o lado crítico está a dizer. São muitas as pessoas que vivem as suas vidas sob a influência deste ataque interno, identificando-se com o lado deles que se sente mal tratado com isso.

Estas reacções acontecem num ápice e na maioria das vezes nem nos apercebemos delas. Para nos libertarmos desta dinâmica temos de ter o cuidado de não tomarmos o partido nem do crítico nem do lado que é mal tratado ou que está a reagir a isso. É preciso desenvolver um estado de presença que, tal como um pai perante dois filhos, terá de encontrar maneira de ouvir e respeitar com os dois lados sem ser tendencioso.

Implementar um estado de presença permite-nos melhor empatizar com estes lados em nós. O estado de presença é poderoso e através dele não precisamos de tanto esforço para fazer companhia ao que se sucede no nosso interior. Não estamos exacerbados com algo nem em estado de negação. Estamos presentes perante a verdade de como estamos num determinado momento. Sentimos aquilo que emerge à nossa consciência sem julgar, em abertura e numa atenção acolhedora.

Adicionalmente e com o passar do tempo, descobrimos que a partir do momento em que tomamos conta das responsabilidades ou situações perante as quais o crítico se apoquenta, ele começa a ganhar mais confiança em nós e gradualmente a dar mais espaço ao resto da nossa consciência. E é por esta razão que o crítico não é a autoridade sobre as nossas situações de vida, ele é apenas um emissário. Assim que ele é despido da sua influência destrutiva, ele passa a funcionar como um farol ou sinal de aviso sobre algo dentro de nós que se encontra vulnerável e que precisa ser atendido.

O fundamental passa por aprendermos a seguir o nosso compasso interno e não o crítico interno, pois este último costuma fazer-nos sentir mais pequenos, inúteis, errados, culpados e até mesmo péssimas pessoas. Ao seguirmos o nosso compasso interno nós desfrutamos de sentimentos de alegria, alívio e força, juntamente com uma sensação de firmeza e verdade em relação aos nossos insights e sensações.

Se ao ler este texto tiver surgido algo em si a dizer-lhe que a linguagem e a proposta aqui apresentadas podem ser meio descabidas, então parabéns! O seu “crítico interno” está a fazer o que lhe é esperado. De facto, pode não ser nada fácil aceitar a ideia de que podemos estabelecer uma espécie de relação interna com os nossos pensamentos, sentimentos ou sensações. Mas a verdade é que todos somos seres relacionais, estamos em constante relação com o mundo, com as pessoas e as coisas externas, pois a nossa sobrevivência sempre dependeu disso.

Tal como a sede implica água, a fome implica comida, a inspiração implica ar, a proposta aqui pretende abrir-nos à possibilidade de que os pensamentos, sentimentos ou sensações, sejam quais forem as suas qualidades, podem também querer implicar algo. Neste sentido, o passo seguinte é você reaprender a escutar a sabedoria implícita do seu compasso interno e aperceber-se que, bem lá no fundo, nunca irá encontrar este tipo de conhecimento em pessoas, gurus, instituições ou livros, apenas dentro de si!

E lembre-se, há formas de aprender a escutar e a trabalhar com estes seus recursos internos. Por exemplo, o Focusing de Eugene Gendlin é uma abordagem simples e natural que nos oferece três dicas para ir lidando com o “crítico interno”, seguido de uma lista com as suas principais características-chave.

Dicas para lidar com o “Crítico Interno

  1. Respire fundo, faça uma pequena pausa interna e peça ao crítico para sair do caminho e estar em silêncio.
  2. Peça-lhe para oferecer a mesma informação mas de um modo construtivo.
  3. Preste atenção ao objecto da crítica, pois o objecto da crítica é essencial e não a crítica em si.

Características-chave do Crítico Interno:

  1. Acha que tem sempre razão naquilo que diz (é adverso à espontaneidade e ao lado misterioso da vida).
  2. Confia apenas naquilo que conhece e parece ter prazer em esmagar aquilo que é delicado, pequeno, novo ou positivo (não lida bem com a vulnerabilidade nem gosta de sair da sua zona de conforto).
  3. Quando um crítico aparece numa situação de vida, podemos tentar considerar a hipótese de ele poder ter boas razões para aparecer (contém sempre alguma centelha de verdade no que quer dizer).
  4. O crítico pode estar ansioso sobre o que poderá acontecer ou estar a acontecer, e talvez por isso ele nos queira proteger (precisa de proteger e não de nos fazer companhia).
  5. Os críticos internos estão obcecados pelo passado ou pelo futuro: nos erros que cometemos, nas condutas impróprias que poderemos vir a cometer (não conseguem estar ligados ao presente).
  6. Fazem comentários e juízos generalizados sobre quem somos e do que somos ou não capazes de fazer, dizendo-nos o que há de errado em nós e as razões de estarmos “feitos num oito” (julgam, diagnosticam e fazem prognósticos em vez de acolherem).
  7. Oferecem soluções fáceis para os nossos problemas que por norma soam a algo como: “Se ao menos eu tivesse sido mais…(trabalhador, amável, assertivo, atento…)”, ou “O que é preciso fazer é… (esforçar-me mais, perdoar, defender-me melhor…)”. Não estão em contacto com a complexidade e o lado intrínseco das coisas.

Por isso, da próxima vez, podem ter outro tipo de cuidado quando estiverem a ser demasiado duros convosco ou com os outros.

Bem-Hajam!

João da Fonseca

João da Fonseca

Sou um psicólogo clínico, psicoterapeuta e formador que sempre se maravilhou com as estrelas e com toda a imensa tapeçaria vibrante de vida que borbulha dentro de nós. Através de um processo relacional e experiencial, posso ajudar-lhe a ir ao encontro de si, dos outros e do mundo.
João da Fonseca

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